Sei que não estou tão presente na vida de vocês. Sei que reclamam que eu não estou sempre lá. Sei que gostariam que eu pudesse vivenciar mais, ouvir mais, ter mais tempo. Sei que estou um tanto quanto displicente…
Mas preciso que saibam que o meu amor por vocês é incondicional. Não há tempo que apague, não há problema que afaste, não há situação que abale. Tenho todas as melhores lembranças que alguém pode ter de amigas tão queridas, sinceras e verdadeiras como as que eu possuo. Esse é um verdadeiro tesouro que carrego comigo, estampado no peito e também guardado dentro do coração, costuradinho em uma caixinha que abro toda vez que bate a saudade.
Não posso esquecer do momento em que me vi perdidamente sofrida por uma das primeiras dores de amor e recebi apoio de uma amiga que não sabia o que fazer com minhas lágrimas. Ela não era muito dada à grandes demonstrações de afeto, mas foi o porto mais seguro que eu pude atracar naquele fim de semana sombrio. Ou o momento de grande alegria ao descobrir que passara no vestibular e, finalmente, iria estudar à noite e poderia ficar mais livre da vigilância paterna. E quando discutia minhas elucubrações literárias e os grandes períodos da História… Conversas que me fazem falta. Conversas que me ajudaram a ganhar bagagem para discussões e debates acadêmicos e filosóficos.
Amigas que me apoiaram em momentos de grandes loucuras. Sejam elas de amor, causadas por uma dor ou apenas da mais alta vontade de ser feliz sem barreiras, sem cortes ou censuras. Saber que poderia chorar no ombro e dali a cinco minutos estar rindo como uma louca e ir ao shopping tomar um sorvete. Aliás, momentos divertidos nos shoppings desta cidade não nos faltam… Amigas que acompanharam os primeiros beijos, as primeiras paixões e sobrevivem até hoje, embora um pouco mais afastadas, até o encontro do grande amor. Amigas que foram pombo-correio e cupido. Amigas que ajudaram o coração a percorrer o caminho que ele deveria. Que emprestaram casa, ouvidos e até o ombro da mãe. Imaginem!
Amigas das quais eu fui banco, fiel depositária, casa de câmbio e financeira. Amigas que me levavam à loucura pedindo cobertura. Amigas que se aproveitavam da carinha de confiável que eu tinha perante às mães – sim, eu tive essa carinha um dia! – e me usavam sempre como fachada para as suas aprontações. E isso quando não me levavam juntas! E posso dizer, que aprontações… Mas era tanta diversão que eu ria até a barriga doer. Ria da própria risada delas. Ria do bocejo na fila para comprar passes estudantis em nossos distantes 15 anos. Você já percebeu como o bocejo é contagiante? Nós também não, até aquele dia em que bocejávamos e ríamos como loucas numa fila quilométrica. Amigas que fazem parte da sua vida desde pequeninas. Que dividiram grandes sustos que a vida pregou e que começam a voltar ao convívio mais presente.
Amigas que eram só a parte alegre da vida. Momentos nos quais sorríamos e éramos felizes e louras. Elas! Pois eu nunca tive, e espero nunca ter, essa vontade. Agora estão morenas, graças às preces atendidas. Amigas que andavam ao sabor do vento, indo sempre aos melhores eventos. Churrascos, festas, boates e onde mais o convite pudesse alcançar. Grandes, bonitas, felizes. Não havia como não chamar a atenção… Muita alegria, mas também fonte de muito apoio em momentos de difícil decisão. O pontapé que faltava alguém dar para que eu fizesse algo que sabia necessário, embora difícil e dolorido.
Amigas que se auto-denominavam “cavaleiras do apocalipse”. Veja lá se isso é título que alguém se dê! Mas era assim que nos portávamos. Transitávamos em todos os grupos, todas as trupes, todas as tribos. Sempre em nosso pedestal, do qual só descíamos se achássemos que valeria muito a pena. Mas sempre amigas dos que se aproximavam para quebrar o vidro que nos envolvia. Sãs em meio a tanta loucura. Tranquilas em meio a tanto exibicionismo. Um tanto maluquetes, mas muito saudáveis em nossas atitudes.
Amigas que se esconderam numa concha fechada. Tão fechada que nem pé-de-cabra resolve. Amigas que não sei mais se estão bem, se são felizes ou tristes, se querem mais ou se estão contentes. Amigas que respeito e gosto, mas lamento estarem tão distantes. Amigas que sinto falta de compartilhar alegrias e tristezas, conselhos e pagações de sapo. Coisa que, aliás, sabemos fazer muito bem!
Amigas que foram mais presentes no passado, mas que nunca deixam de se fazerem lembradas. Um telefonema, uma mensagem no msn ou um cartão postal de um canto do mundo qualquer. Amigas que viveram situações incomuns, com as quais dividi confidências depois, sem saber que haviam vivido a mesma história que eu. Amigas que são loucas, que jogam tudo para o alto, mas que se empenham na busca da felicidade plena. Com receios, com medos, mas com muita coragem e vontade de que tudo dê certo. Amigas fortes, leves de alma e carregadas de poesia como um abacateiro em flor. Amigas autênticas, simples e que não conseguem deixar para amanhã o encontro com os sonhos e projetos.
Amigas que encontrei mais tarde. Em momento mais maduro. Maduro? Que nada! Sempre há espaço para as insanidades. Amigas que conheci de forma torta, mas que se mostraram feitas na medida para nossa amizade. Amigas com as quais me diverti em grupo, em dupla, em trio. Festas, viagens, baladas. E sempre com a busca do grande amor. Hoje sei que isso é o que uma mulher de verdade quer encontrar na vida. Todas queremos ser amadas. Todas queremos amar sem limites. Amigas com as quais desmascaramos namorados e demos conselhos para sofrer menos. “Ops, respeita a polícia!’, “Cachorrões fora!” Muitas risadas e algumas lágrimas, e nós seguimos pela vida na busca incessante de amor, respeito e consideração.
Amigas que encontrei no campo das idéias. Que nem sei em que momento conheci. Mas que dividiram parte importante da minha história. Amigas com as quais tive debates no campo da comunicação, das idéias de ter um grande ideal. Que entraram pouco na minha vida, mas que conquistaram um grande espaço no meu coração. Amigas das quais respeito a opinião e quero ter ao meu lado nos grandes projetos que ainda pretendo desenvolver. Amigas que, inesperadamente, me viram vivenciar uma paixão relâmpago, me ajudaram a enxugar as lágrimas e fizeram enxergar-me como um mulherão. Amigas que também vibraram ao saberem do encontro com o grande amor que veio logo em seguida.
Amigas que passaram e não mais estão, amigas que tem suas histórias boas em minha existência, amigas que estão perto, amigas que estão longe. Obrigada por me encontrarem. Por fazerem parte do meu mundo. Por me ajudarem a construir minha longa colcha de retalhos da amizade, da sinceridade, da verdadeira transparência da qual é feito esse sentimento tão puro e honesto que carregamos juntas. Muito obrigada!
Flávia Gomes